Olá, caro leitor!
Para que fique mais íntimo das serpentes, neste artigo irei expor um panorama geral sobre suas características corporais, onde vivem, o que comem, enfim…um perfil resumido e objetivo. Espero que ao final da leitura você possa ter conhecido um pouco destes animais e fique curioso para buscar ainda mais informações!
1. Classificação
Na biologia, utilizamos classificações para organizar as formas de vida, assim fica mais fácil de estudá-las. A área do conhecimento que faz essa organização se chama taxonomia, através de semelhanças ou diferenças (físicas/genéticas), é feito o agrupamento dos seres vivos em categorias taxonômicas. Em relação as serpentes, temos a seguinte classificação:

** Falaremos mais sobre as famílias de serpentes no artigo sobre peçonha 🙂
2. Características corporais e sensoriais
a) Corpo
As serpentes são animais com corpos cilíndricos/alongados (ou formato serpentiforme), recoberto por escamas e com ausência de patas, devido a este ultimo fato se locomovem deslizando no meio que habitam. Pensando de forma geral, seu esqueleto é formado basicamente por: Maxilar, crânio, coluna vertebral e costelas (Sim! As cobras tem ossos!)

Também é interessante relembrar uma característica muito notável destes animais: sua evidente troca de pele! Acima das escamas de seu corpo, existe uma camada de pele superficial chamada epiderme, essa camada é trocada durante toda a vida das serpentes e sua principal função é proteger as escamas.

b) Dentição
Algumas serpentes são peçonhentas (como explicado aqui) e para conseguirem aplicar veneno em suas presas, utilizam de seus dentes especializados, baseado nisso, existem quatro tipos de dentição que uma serpente pode apresentar:
- Áglifa: Não existem dentes especializados para inoculação. São utilizados para segurar e consumir a presa.
- Opistóglifa: Os dentes especializados para inoculação se encontram na parte de trás da maxila. Utilizados para captura de presas, raramente geram acidentes.
- Proteróglifa: Os dentes especializados para inoculação se encontram na parte da frente da maxila. Devido a localização no maxilar, apresentam maior probabilidade de gerar acidentes ofídicos.
- Solenóglifa: Dentes altamente especializados na inoculação de peçonha, estão na parte da frente da maxila e também são retráteis, ficando a mostra quando a serpente abre a boca. Este dente é oco, sendo o canal por onde escoa a peçonha, as serpentes portadoras dessa dentição geram graves acidentes ofídicos.

c) Sentidos
Tradicionalmente, está acordado que os humanos possuem 5 sentidos: visão, olfato, paladar, audição e tato. É através dos sentidos que percebemos o ambiente ao nosso redor, mas você já pensou em como essa percepção é para as cobras? A seguir falarei sobre:
- Olfato
Diferente de nós, o olfato das serpentes ocorre por meio de duas estruturas: sua língua bifurcada e o órgão de Jacobson (localizado no céu da boca). Quando a cobra coloca sua língua para fora, esta a auxilia na captação de partículas químicas (odores) no ar, e assim, quando a língua retorna a boca as partículas são conduzidas para o órgão de Jacobson, ele interpreta o que foi recebido e envia as informações para o cérebro da serpente.

- Audição
Sobre a audição, as serpentes não possuem um sistema auditivo complexo como o de outros animais, como ouvido externo-médio-interno. Porém, na base da mandíbula possuem um osso chamado columela que se conecta a sua caixa craniana, quando um movimento faz a superfície vibrar e as vibrações chegam ao corpo da serpente, consequentemente, esse osso também vibra resultando na percepção do som.
- Percepção de calor
Já ouviram falar de cobras com “quatro ventas”? Se refere a serpentes que possuem uma cavidade entre sua narina e olhos, também podemos dizer que é a forma popular de dizer que uma cobra possui fosseta loreal. A fosseta é um órgão termorreceptor, ou seja, ela permite perceber variações de temperatura no ambiente, isso auxilia a serpente a encontrar suas presas.
⚠️ Lembrando que: Nem toda serpente possui fosseta loreal!

- Visão
As serpentes não possuem pálpebras, em seu caso, existe uma escama transparente que protege os olhos. No que diz respeito a quão apurada é a visão, elas (no geral) não enxergam muito bem, com a presença de variações dependendo de seus hábitos de vida. As cobras que vivem a maior parte do tempo em árvores (arborícolas) apresentam uma melhor visão em relação as que vivem no chão (terrícolas) e que vivem em buracos (subterrâneas).

3. Reprodução
As serpentes possuem o que chamamos de reprodução sexuada, quando há troca genética entre dois indivíduos; ela se dá quando o macho insere seu hemipênis na cloaca da fêmea iniciando a fecundação. O desenvolvimento dos filhotes podem ocorrer de duas formas:
- Ovípara
A serpente ovípara bota ovos que contém os filhotes. A vantagem dessa forma de desenvolvimento é que a mãe cobra se livra do peso extra dos ovos mais rapidamente, porém, ela precisa encontrar um local úmido e quentinho para colocá-los, e ainda, corre o risco de perder seus esforços de gestação caso eles sejam predados ou ocorra algum infortúnio.

- Vivípara
Neste desenvolvimento, os filhotes de desenvolvem em um ovo e eclodem no ventre da mãe cobra, assim temos o nascimento de filhotes formados e independentes. A vantagem aqui é que os filhotes ficam protegidos no ventre até o nascimento, em contrapartida, a mãe fica vulnerável por mais tempo devido ao peso extra dos ovos.

4. Alimentação
Se alimentam exclusivamente de carne, com uma grande possibilidade de presas (e que vai depender da espécie da serpente), conseguem ingerir animais até 3x maiores que seu diâmetro devido a grande abertura de boca. Quanto a forma que caçam, dividi seus métodos nas seções captura e abate, sendo explicadas a seguir:
Formas de captura
Comumente, podemos dizer que existem as serpentes que praticam caça ativa e as que “sentam-esperam”. Na caça ativa, a estratégia da cobra é se deslocar para encontrar o alimento, já as praticantes de “senta-espera” tem um nome autoexplicativo, a serpente fica de tocaia esperando a presa aparecer. Exemplos de espécies que praticam cada modalidade:
- Caça ativa: Cobra-cipó e caninana.
- Senta-espera: Jararaca, cascavel e jiboia.
Formas de abate
Sobre o abate de presas, são conhecidas as estratégias de: constrição (estrangulamento) e envenenamento.
A constrição é o ato de estrangular a presa até matá-la por asfixia! As cobras que utilizam esse método possuem uma forte musculatura e são chamadas de constritoras. Já o envenenamento, que é o método utilizado pelas cobras peçonhentas, é basicamente injetar peçonha na presa e esperar a sua morte.
5. Habitat
Podemos encontrá-las morando por quase todo globo terrestre, com exceção dos pólos e montanhas muito altas, isso acontece devido a um fato importante sobre as serpentes, elas são animais ectotérmicos, ou seja, que dependem do calor do ambiente para manter sua temperatura corporal. Os lugares citados como exceção são ambientes muito frios, logo, as serpentes não sobreviveriam neles.
Em relação ao meio que habitam, existem as seguintes classificações:
- Fossoriais: vivem enterradas na terra;
- Terrícolas: vivem acima da terra;
- Arborícolas: vivem penduradas em árvores;
- Aquáticas: vivem em água doce, como nos rios;
- Marinhas: vivem em água salgada, em oceanos.
Essas forma de habitar não são restritas, como por exemplo, uma cobra terrícola não poder nadar, elas dizem mais sobre onde as serpentes passam a maior parte do tempo.


6. Animais serpentiformes: Parece mas NÃO é!
Os animais serpentiformes se assemelham muito a serpentes em sua estrutura corporal externa, entretanto, NÃO SÃO serpentes! Como demonstrado por LIMA-SANTOS et al (2020) em estudo que aconteceu no parque M’Boi Mirim em São Paulo: “Muitos participantes (da pesquisa) tem medo de cobras, que, em conjunto com a identificação errônea, podem causar encontros desastrosos e levar a morte de qualquer animal parecido com uma cobra”, somente a semelhança já coloca estes animais em risco, mesmo que não possuam estruturas de proteção e caça que geram acidentes. A seguir mostrarei alguns indivíduos que frequentemente são confundidos com serpentes:
a) Cobra de vidro
São lagartos que não são cobras pelas seguintes características externas*:
- Possuem pálpebras;
- Patas traseiras muito pequenas (vestigiais).
Além disso, possuem esse nome por causa de um comportamento de auto amputação, quando atacados, esses lagartos “perdem” a cauda para poderem fugir e se livrar de predadores, essa ação é vista pelo conhecimento popular como se quebrar como vidro.
*Aqui digo “características externas” como elementos que podem ser vistos a olho nu.

b) Cobra de duas cabeças
Anfisbenídeos são animais escamados que vivem no subterrâneo cavando túneis com seu crânio duro. O nome popular se deriva da semelhança entre sua cabeça e cauda arredondada, são totalmente inofensivos e não apresentam risco de saúde.

c) Cobra-cega, cecílias
São animais anfíbios que majoritariamente possuem hábitos fossoriais, por este motivo possuem olhos muito atrofiados. Como todos os indivíduos citados até agora, são inofensivas para nós! Contudo, uma recém descoberta do Instituto Butantan demonstra que uma espécie produz peçonha. Mesmo com essa característica, não apresentam perigo, não existem registros de acidentes com humanos, e além disso, cecílias vivem escondidas relativamente fundo na terra, o que dificulta um encontro.
🤔 Caso queira saber mais sobre essa cecília diferentona com peçonha, acesse este vídeo do Instituto Butantan!

d) Minhocuçu
O minhocuçu é uma minhoca que pode chegar a medir mais de 1m de comprimento, pertence ao bioma cerrado das regiões centrais de Minas Gerais.

e) Calango-liso
Se trata de um lagarto com patas reduzidas! Ele pode ser encontrado no nordeste do país, o que contribui para o apelido calango liso da caatinga. Ao ser entrevistado pelo G1 em 2019, o biólogo Daniel Passos, justifica a confusão ao se acreditar que este lagarto é uma cobra:
“Muitas vezes ele recolhe os braços e pernas junto ao corpo e rasteja sobre o solo, similar a uma serpente. Essa é uma forma de locomoção muito frequente entre os répteis, além das cobras, uma vez que o deslizamento entra as folhas e areia é mais eficiente para animais que possuem pernas pequenas, ou mesmo não as possuem”

**Lembrando que: Calango é um nome popular utilizado para diversas espécies de lagartos.
f) Lagarto-escrivão
Lagarto-escrivão é um nome popular para lagartos sem membros anteriores, com membros posteriores reduzidos e de hábitos fossoriais. A espécie abaixo foi descoberta em 2016, no nordeste do Brasil.

7. Importância para sociedade e ambiente
Agora, você pode estar se perguntando: “Como uma serpente impacta minha vida? Por que eu deveria cuidar delas?”
Pensando no meio ambiente, elas são muito importantes exercendo controle na cadeia alimentar, tanto como predadoras, exercendo controle de algumas espécies (anfíbios, roedores), quanto sendo predadas por outros animais (como aves de rapina).
Além disso, as substâncias presentes na peçonha de algumas espécies são usadas em diversos produtos:
- Soro antiofídico,
- Medicamentos;
- Tratamentos;
Um exemplo de como preservar as serpentes contribui para nossa sobrevivência é o remédio captopril, ele foi descoberto em pesquisas brasileiras a partir da peçonha da jararaca, e é um dos mais utilizados para pressão alta (hipertensão).
Referências
BUCHERONI, Giulia. Calango-liso é predador voraz que “divide” nome popular com outras espécies. G1, 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2019/02/13/calango-liso-e-predador-voraz-que-divide-nome-popular-com-outras-especies.ghtml> . Acesso em: 13 de julho. 2022.
CALDAS, Francis Luiz Santos et al. Diploglossus lessonae Peracca, 1890 (Squamata: Anguidae): new records from northeast Brazil and notes on distribution. Check List, v. 12, n. 5, p. 1982-1982, 2016.
DE OLIVEIRA, G.F. Herpetocapixaba. Ophiodes, a cobra-de-vidro. Disponível em: <https://www.herpetocapixaba.com.br/post/ophiodes-a-cobra-de-vidro> Acesso em: 29 de jan. 2022.
FRAGA, Rafael de et al. Guia de Cobras da Região de Manaus Amazônia Central.
JULIÃO, André. Agência FAPESP. Glândulas de veneno similares às de serpentes são encontradas em anfíbios. Disponível em: <https://agencia.fapesp.br/glandulas-de-veneno-similares-as-de-serpentes-sao-encontradas-em-anfibios/33556/> Acesso em: 29 de jan. 2022.
Lepidosaurs – Tuatara, lizards and snakes. POUGH, F. Harvey et al. Vertebrate life. Upper Saddle River, NJ: Prentice Hall, 2018.
LIMA-SANTOS, Jade; COSTA, Henrique C.; DE BARROS MOLINA, Flavio. The curse of being serpentiform: perceptions of snakelike animals in São Paulo, Brazil. Ethnobiology and Conservation, v. 9, 2020.
PIMENTA, Thaís. Descoberta: lagarto-escrivão é novo réptil exclusivo do Brasil. G1, 2022. Disponível em: <https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2022/05/04/descoberta-lagarto-escrivao-e-novo-reptil-exclusivo-do-brasil.ghtml> . Acesso em: 13 de julho. 2022.
RECODER, RENATO SOUSA et al. Morphological variation and genealogical discordance in Caatinga sand lizards Calyptommatus Rodrigues 1991 (Squamata: Gymnophthalmidae) with the description of a new species. Zootaxa, v. 5129, n. 3, p. 374-398, 2022.
SIQUEIRA, Flávia De Faria et al. Análisis filogenético del minhocuçu Rhinodrilus alatus, Righi 1971 (glossoscolecidae: annelida), basada en secuencias de los genes de rDNA 5.8 S, del espacio interno transcrito (its1) y de la subunidad I de la citocromo C oxidasa mitocondrial. Acta zoológica mexicana, v. 26, n. SPE2, p. 59-77, 2010.
