Olá, caro leitor!
Então, diga-me, você sabe dizer quando uma cobra é venenosa/peçonhenta? Sabe quais cobras REALMENTE oferecem risco à sua saúde caso te mordam?
Para esclarecer essas dúvidas temos o presente artigo! Então vamos lá!
❗❗Antes de começar a explicar sobre as substâncias, é importante destacar que: as serpentes possuem peçonha com a finalidade de caçar e se alimentar! Não é para predar seres humanos ou se vingar de nós, caso algum acidente, ocorra é por desatenção da nossa parte que leva a serpente a reagir em defesa própria!
1. Peçonha x Veneno
Quando falamos sobre serpentes que possuem substâncias tóxicas, geralmente os termos venenosa ou peçonhenta vem à tona… Mas será que eles são sinônimos? Ou apresentam diferenças entre si?
Bem, existe uma diferença básica entre os dois termos, que é a forma que o animal transmite suas substâncias, falaremos mais abaixo:
Peçonha
É uma substância tóxica exclusivamente produzida pela glândula de animais que chamamos de peçonhentos, além disso, a peçonha só é inoculada/injetada através de alguma estrutura corporal específica, no caso das serpentes peçonhentas, pelos dentes. Outros exemplos de animais peçonhentos são: escorpiões, aranhas, águas-vivas, dentre outros.
Confira a seguir um vídeo do Instituto Vital Brazil demonstrando a extração de peçonha 🙂
Veneno
Também é uma substância tóxica, mas que NÃO é disseminada por uma estrutura corporal específica (como a peçonha), o veneno é transmitido de forma passiva quando se tem contato com o animal venenoso. Exemplos de animais venenosos são: taturanas (lagartas de fogo) e algumas espécies de anfíbios.

Apesar dessa diferença, você pode encontrar instituições e especialistas no assunto utilizando o adjetivo “venenosa” para se referir a serpentes peçonhentas, isso se deve ao termo veneno/venenosa/envenenamento estar muito presente no senso comum geral e, em vias de efeito no corpo humano, produzirem sintomas parecidos. Então, mesmo que os dois termos apresentem diferenças, quando estivermos falando sobre cobra venenosa e cobra peçonhenta, se tratam de sinônimos.
2. Quais são as características de uma serpente peçonhenta?
Durante um bom tempo, tentou-se construir um padrão da aparência de serpentes peçonhentas: “Cobras venenosas possuem pupilas verticais / O formato da cabeça de cobras venenosas é triangular”, mas como essas características físicas estão geralmente relacionadas ao hábitos e sexo da cobra, logo percebeu-se que a padronização não poderia ser usada para definir se o indivíduo é capaz de inocular peçonha.
Erroneamente, muitos livros didáticos/materiais de apoio chegaram a disseminar quadros de identificação de serpentes peçonhentas a partir das características corporais.

Hoje, sabemos que a principal característica de serpentes peçonhentas é a presença de FOSSETA LOREAL (lembra dela do artigo de “Quem são as serpentes?“?). A fosseta é uma abertura que se encontra entre o olho e a narina da cobra, ela a auxilia na percepção do calor no ambiente sendo muito importante para caça de animais endotérmicos (que possuem temperatura corporal estável ). Mas como tudo tem uma exceção, entre as serpentes venenosas presentes no Brasil, a cobra-coral não possui fosseta loreal.
Também é importante prestar atenção na dentição da serpente, as proteróglifas e solenóglifas são as que possuem maiores chances de causar acidentes ao se defender, devido seus dentes estarem localizados na parte anterior da boca.
3. Cobras peçonhentas no BR
No Brasil, possuímos duas famílias de serpentes peçonhentas: Elapidae e Viperidae, com a segunda possuindo alguns gêneros peçonhentos. Seguem abaixo exemplos dos representantes dessas família:
Cobra-coral
Família: Elapidae
Gênero: Micrurus
Essa é a família das cobras-corais, facilmente reconhecidas pelas suas cores vibrantes, geralmente em vermelho, preto, branco e até amarelo! Algumas espécies possuem anéis no dorso de seu corpo, característica presente no nome popular. Como dito anteriormente, não possuem fosseta loreal e sua dentição é proteróglifa!

Observe a diversidade de coloração das cobras-corais pelo trabalho do ilustrador científico Marcos Buononato!

Além disso, as cobras-corais possuem uma “imitadora”, as falsas-corais! Na biologia chamamos a ação de imitar as características de outra espécie de mimetismo, sendo assim, as falsas-corais mimetizam a coloração das corais-verdadeiras para se proteger de possíveis predadores, pois diferente das verdadeiras não possuem peçonha. Para quem é leigo, as diferenças entre as duas são imperceptíveis, então se vir uma cobra com cara de coral, não mexa com ela!
Jararaca
Família: Viperidae
Gênero: Bothrops
São cobras que possuem a terminação da cauda lisa e escamas supra-oculares, que lhes dão uma expressão de “bravas”. Sua dentição é solenóglifa e possuem fosseta loreal!

Cascavel
Família: Viperidae
Gênero: Crotalus
Esse gênero possui apenas 01 espécie representante em solo brasileiro, a Crotalus durissus, sua principal característica é a presença de um chocalho (guizo) no final da cauda. Possui fosseta loreal e dentição solenóglifa.

Surucucu Pico-de-Jaca
Família: Viperidae
Gênero: Lachesis
Esse gênero também possui apenas 01 espécie em solo brasileiro, a Lachesis muta, possui coloração preta e laranja, escamas eriçadas na cauda, além de fosseta loreal e dentição solenóglifa.

Voltarei a falar das serpentes acima, e também, sobre o que fazer caso for mordido/picado por elas em um próximo artigo 🙂
Referências
BERNARDE, Paulo Sergio. Mudanças na classificação de serpentes peçonhentas brasileiras e suas implicações na literatura médica. Gazeta médica da Bahia, n. 1, 2011.
DE OLIVEIRA, Natiela Beatriz; JÚNIOR, Osmindo Rodrigues Pires. Venenos e peçonhas animais: aplicações tecnológicas e Biopirataria.
DOS-SANTOS, Maria Cristina et al. Serpentes de interesse médico da Amazônia. UA/SESU, 1995.
PUORTO, Giuseppe et al. Animais venenosos: serpentes, anfíbios, aranhas, escorpiões, insetos e lacraias. 2017.
